Contemporaneamente, alguns fervorosos debates sobre o urbano e a cidade emergem como uma pauta enraizada sobre um contexto: maio de 1968. Importa para a constituição deste estudo que a análise seja anunciada como atravessada pelo contexto histórico iniciado em maio de 1968, momento em que houve a exposição das contradições de cunho político e social a partir de levantes em que a heterogeneidade em realidades específicas de países representava em certo grau um conjunto de pautas associadas.
Esse cenário insere as breves linhas deste curto texto que integra parte das discussões que tenho empreendido nos estudos sobre urbanização, porém que acaba sendo finalizado no ano de morte de Jean-Luc Godard. Pensar em cidade e cinema revela a obra do cineasta francês de maneira incontornável. Contexto em que o filme Alphaville: une étrange aventure de Lemmy Caution, dirigido por Godard, foi lançado em 1965 e premiado com Urso de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Berlim no mesmo ano. A obra cinematográfica se insere no movimento do cinema francês da Nouvelle Vague, movimento artístico que se inseria no contexto contestatório dos anos 1950-1960 na conjuntura das irrupções no concebido movimento de Maio de 1968, movimento de libertação feminina e a crítica ao colonialismo. O título da produção cinematográfica se refere ao nome da cidade em que a trama ocorre, em que o cenário de ficção científica e de estilo Cinema Noir, conduz à sensação de uma cidade fria, fechada, melancólica, iníqua sem qualquer especificação de tempo ou espaço, na medida em que não existe qualquer pessoalidade, diante de cenários frígidos expressos em corredores e rampas.
Por sua arquitetura moderna, expressa sobressaltos de formas, tramas, fachadas e asfaltos em linhas geometricamente articuladas e propositalmente encaixadas num esforço de reforçar a ausência presente da subjetividade que centraliza o debate das relações sociais. Movimento marcado pela negação da subjetividade e da pessoalidade como instrumento de conformar a subjetividade. Nota-se ao longo da produção cinematográfica, de modo reiterado, como a utopia de cidade moderna, arraigada em ideais iluministas, apodera-se da ideia de Razão e progresso como fio condutor de uma narrativa distópica.
Como enviado de outro lugar, de países estrangeiros, Lemmy Caution, agente secreto disfarçado de jornalista, ingressará em Alphaville com a missão de aniquilar e destruir o Alpha 60, computador operante e controlador da cidade e da população de Alphaville. Ao longo da narrativa exposta na produção, a forma enigmática pela qual o agente deveria se voltar à missão conferida fica revelada na medida em que são mobilizados a temática abstrata dos afetos, dos sentimentos. A contradição entre a impessoalidade expressada nas formas e linhas urbanas e a necessidade de se decifrar um enigma cuja forma é uma ideia, algo materialmente não tangível, ou seja, abstrato e que reflete no esvaziamento das noções de lugar, tempo e espaço. [1]
A história de Von Braun, cientista exilado e criador do Alpha 60, computador altamente avançado tecnologicamente e caracterizado por deter de inteligência artificial, com a instalação da máquina, Alphaville se orienta com base na racionalidade extremada cuja base principiológica é anunciada aos ingressantes na cidade sob o registro em palavras-chave: silêncio, lógica, segurança e prudência. Por força da obra criada pelo cientista exilado, a ubiquidade de Alpha 60 registra todo cotidiano, ações e condutas dos habitantes de Alphaville. A captura dos fatos, olhares e movimentos havidos na trama urbana da cidade precisamente projetada sob o véu da Razão e das luzes da modernidade tonificam a onipresença do controle social objetificado na máquina Alpha 60. Guiadas pela voz solene, profunda e cortante os habitantes de Alphaville experenciam a vida em uma cidade morta.
O controle social imposto no cotidiano dos habitantes de Alphaville também é revelado pelo fato de lhes ser administrada uma medicação para que a existência de cada uma daquelas pessoas seja esvaziada de consciência e afetos. Em Alphaville não existem memórias, como também não existem expectativas. A noção de passado e futuro é esterilizada como forma de que seus habitantes sejam mantidos na emergência do tempo presente.
No cenário controlado por Alpha 60, a distopia igualmente revela que há possibilidade de fuga do transe coletivo apresentado, ou em outras palavras, de despertar do sentido de anestesia coletiva, sob pena de condenação e morte, uma vez que os habitantes que escapam ou se evadem não estariam dotados de racionalidade estariam agindo conforme sentimentos humanos. Para além da ausência de singularidades, em Alphaville os afetos são raros, desarrazoados pois são contraditórios a um espectro de racionalidade que aniquila a subjetividade e esvazia as possibilidades de afetação. [2]
Alphaville como representação de um modus de viver guarda relação com a dinâmica das cidades em que as pessoas não se conhecem, não desejam se relacionar, o espírito das grandes cidades impõe em seus moradores um determinado animus relacionado ao que denomina de blasé. Tal atitude espiritual se manifesta como reserva e estimula a segregação como “autoconservação frente à cidade grande exige-lhe um comportamento não menos negativo de natureza social”, de modo que “os habitantes da cidade grande estariam completamente atomizados interiormente e cairiam em um estado anímico completamente inimaginável” [3]
Diante da imposição e da forma do controle social realizado, há um esforço de países estrangeiros buscarem intervir naquela realidade desenhada por Alpha 60 para resguardar a “ordem” e reestabelecer a “normalidade”. Levar racionalidade para a racionalidade desvela contradições nos movimentos de normatização do outro.
Nesse movimento de tentativas de interpelações em Alphaville e efetiva destruição de Alpha 60, para além da consideração marcante sobre a ideia de controle social, a noção de construção da cidade mantém-se apegada e reduzida às pedras e à concretude que a materializa enquanto um objeto racionalizado de organização da vida e da experiência humana. Porém, o que não se fala é o que se edifica sem qualquer tangibilidade entre o concreto e o discurso de Alphaville, a imagem que se produz sobre as relações sociais que estão concatenadas no curso da narrativa.
Com base na narrativa de Godard, o poder sobre os afetos e sobre sentimentos e inconsistências da existência humana são premissas para a elaboração de um modo de viver adequado, normatizado e padronizado. Sinteticamente, Alphaville é uma criação de um cientista, em uma sociedade concebida pelo homem a partir de um ideal de valores (silêncio, lógica, segurança e prudência), de modo que a todo momento se manifesta contraposição entre nós (moradores de Alphaville) e eles (os forasteiros, que vêm de fora, dos países estrangeiros).
A obra de Godard reflete o caráter autoritário de planejamento urbano enquanto um mecanismo de controle social capaz de esterilizar não apenas o espaço, mas que, por meio da formulação de uma subjetividade muito específica, cria modelos e padrões homogêneos de existência que, no limite, cristaliza-se como uma “ambição natural” do agente que lhe produz. Sob a análise da morfologia urbana, apresenta-se uma veemente crítica à organização do espaço e ao potencial autoritário de impor controle.
Alphaville, ficção artística sobre o urbano, “empresta” mais que um nome à produção urbana realizada nos anos 1970 no Brasil, trata-se da estruturação de um modelo. Desenvolve-se uma filosofia a partir de uma contradição. Se em Alphaville de Godard, há uma crítica social à forma urbana implementada na especificidade histórica do capitalismo; em Alphaville da empresa urbanizadora brasileira homônima ao projeto e ao filme, há uma reprodução das noções de tempo e espaço objeto da crítica artística, ou seja, os valores de Alphaville distópica são os valores norteadores de Alphaville formulado e implementado em um cenário real.
Materializa-se o objeto da crítica social narrada no filme como filosofia. Incorpora-se o objeto da crítica buscando legitimar um modelo de urbanização. Ironicamente, o superlativo apresentado na crítica de Godard é incorporado por uma empresa urbanizadora cuja atividade econômica se baseia na incorporação imobiliária, fagocitando a crítica e reproduzido a estrutura do modelo criticado como forma de modelo ideal de produção do espago urbano.[5]
Ideologicamente a apropriação da essência de Alphaville estrutura-se tão profundamente que a análise da expressão que dá nome ao filme, à empresa urbanizadora e seus projetos implicam em perceber a utilização de um “radical” por meio da primeira letra do alfabeto grego (e, por isso, denota-se toda grandiosidade da Antiguidade Clássica, sua noção de ideal, perfeição) somando-se à Modernidade expressada pelo estilo francês com a utilização do sufixo ville (cidade). Entre o curioso e o proposital, talvez o segundo qualifique mais adequadamente a situação.
Contudo, nota-se que há na afirmação da criação de uma cidade numa porção de terra urbana uma certa dialeticidade que nega a ideia de cidade enquanto espaço comum, coletivo para reproduzir uma espécie de apartação, com o estabelecimento de uma cidade intramuros (ou reprodução em menor escala daquilo que chamamos de cidade, idealizando a possibilidade de exclusão desse modelo de toda qualidade de fatores que devem permanecer extramuros).
Se a cidade está para além as pedras que a edificam, o sentido de discurso e invenção de um modelo particular de estabelecimento do fenômeno urbano recebe um tom muito específico em Alphaville. O sentido imposto por Alphaville num grupo de pessoas específico implica no movimento, quase que de magia, metaforicamente descrito por Pechmann, ao explicar a transformação da cidade de pedra em pedras da cidade e, dessa forma, inventando-se a cidade, na medida em que se dá às “formas físicas um enquadramento numa teia discursiva, de maneira tal, que a dureza da pedra não se reconheça mais na alma mineral, mas somente na fluidez do discurso” [4]
Alphaville impõe-se como modelo oriundo de uma série de valores individuais pautados na instituição de um estilo de experimentar a cidade de forma diferenciada, a partir da criação de espaços particulares e modelos urbanísticos que elegem tanto a dispersão com relação aos centros urbanos como homogeneização de formas de vivenciar o espaço. Alphaville brasileira representa uma alegoria do cenário distópico da cidade do cientista exilado Von Braun, roteirizada na Alphaville de Godard.
Notas:
[1] DUNKER, Christhian Ingo Larenz. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. 1 ed. São Paulo Boitempo, 2015.
[2] SAFATLE, VLADIMIR, Prefácio: Depois dos muros de Alphaville, o mato. In: DUNKER, Christhian Ingo Larenz. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. 1 ed. São Paulo Boitempo, 2015.
[3] SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito (1903). Revista Mana, p. 577-591, 2005
[4] PECHMAN, R. Pedra e discurso: cidade, história e literatura. Revista Semear 3. Rio de Janeiro, no. 3, 1999. Disponível em http://www.letras.puc-rio.br/unidades&nucleos/catedra/revista/3Sem_06.html
[5] CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. 3. Ed. São Paulo: Edusp, 2011.
*colaboradora externa